
Hoje a minha mãe chegou de viagem. Nós não moramos juntas. Há dois anos. Ela e meus irmãos continuam no Rio. Eu sempre fui Paulista por opção. E cariocas que me perdoem, mas eu amo muito mais São Paulo. Não to querendo dizer que necessariamente um lugar é mais bonito que o outro ou coisas do gênero não. É uma questão de gosto mesmo, total pessoal. Afinidades.
Com 9 anos de idade eu já sabia que essa ia ser a terra pra construir a minha vida. E o engraçado é que a sensação que eu tenho, é justamente de que eu nunca construi uma vida no Rio de janeiro. Nada grande, nada adulto, nada que me parecesse mesmo real. Eu acho às vezes que a gente meio que tem uma missão, sabe? Em alguma coisa, com alguém ou algum lugar. Eu só parti na minha hora. Levou um tempo pra descobrir o que eu queria pra mim, mas eu me achei.
Há exato um ano atrás eu estava extremamente mau humorada, chorona e vazia. Eu nunca vou esquecer do dia que voltei do trabalho chorando e soluçando enquanto a minha tia dirigia com uma mão e com a outra segurava a minha.
- Você é muito nova pra realmente saber o que significa estar vazia.
Eu realmente me sentia vazia. Demais.
Maeu salário inteiro era investido em roupas, baladas, um pouco de maquiagem. Dívidas no cartão de crédito. Um monte de sapatos que eu mal usei, tendo sorte dos que eu usei realmente. Era a minha forma de me preencher, de alegrar um pouco uma vidinha agitada, mas muito sem graça que eu levava.
- Aline você tem tudo! É jovem, bonita, tem uma amiga que ta sempre do seu lado. Mora num bairro bom, tem uma boa condição de vida. Emprego, estudo. Você não é vazia. Você não tem motivos pra se sentir infeliz. Entende, meu amor?
Não, eu não entendia. Eu compreendia muito bem o que ela falava. Mas não era suficiente. Eu não queria aquele emprego, eu queria algo muito maior que só eu podia me dar, e aquela ainda não era a hora. Eu precisava de mim mesma. Precisava me encontrar.
Pular de curso em curso na faculdade, prestar vestibular sei lá quantas vezes. Gostar de alguma coisa e ainda sim não sentir que aquilo tem tudo ou o suficiente pra te preencher não era nada fácil pra mim. Se é pra fazer algo, que seja bem feito. E pra isso é preciso bater forte aqui dentro e me fazer vibrar.
Eu gostava de muita coisa diferente e isso me embaralhava demais. Eu gostava de várias porque nenhuma delas era suficiente pra me prender. Nenhuma tinha exatamente o que eu buscava. Sempre faltava algo. Sabe quando você encontra alguém muito legal e essa pessoa é divertida, bonita, engraçada, te da valor... mas não faz o seu coração bater bem forte e você não fica tão ansioso na hora do encontro? Sabe quando falta alguma coisa, aquele sal? Era tipo isso...
Aquela mulher me pressionando todos os dias também não ajudava nada. Eu me sentia uma bonequinha na mão das pessoas. Por favor, alguém aí perguntou se eu estou satisfeita?
Desculpe, mas... alguém me perguntou se eu estou feliz, se é isso que eu quero pra mim?
Eu não vou começar. Eu juro que eu não vou começar enquanto eu não tiver certeza! Por que eu não acho um curso do meu gosto? A Elisangela vai ficar falando, Deca. Ela sempre pergunta da minha faculdade. Eu só tenho mais uma semana pra descobrir o que eu quero fazer a vida inteira. E ainda não tem nada que realmente me empolgue.
Me matava aquela expectativa enorme em cima de mim.
- Você tem um excelente emprego. Não seja burra, tenta crescer La dentro.
“Olha essas tatuagens! Que cor é essa de cabelo? Aline, você usa muita maquiagem. Já foi ver sua faculdade? Você sabe que nada vai te segurar aqui sem um curso, mocinha. E essas pulseiras, não são muito grandes e brilhantes? Os esmaltes que você usa não passam seriedade. Eu te acho muito criativa e muito inteligente, por isso eu quero que você suba de cargo. Mas antes você precisa ser outra pessoa, ok?! Claro que ta ok, Aline. Quem decide aqui sou eu ;) ou senão você vai ficar pobre.”
Eu tinha muito medo de ficar pobre. Elas adoravam me deixar muito mais insegura. Quem se sente inseguro não arrisca, vai pelas idéias dos outros. Uma menina tão bonita e tão inteligente não poderia desperdiçar tantas chances, não é verdade?
“Faça tudo o que eu mandar e você vai ser feliz pro resto da sua vida”
Pronto, explodiu! Eu não agüento mais, cansei. Cansei de muita conversa, cansei de muito conselho que eu sequer pedi. Vem Ca, me lembrem por gentileza a hora que eu pedi a opinião de vocês ou que alguém me aceitasse, porque eu mesma não estou lembrando.
Eu nunca disse que esse era o emprego dos meus sonhos. Que eu queria morar em Moema a vida inteira. Eu também nunca achei que RH tivesse alguma coisinha a ver comigo. Eu odeio todas essas formalidades, essas bostas de roupas que só servem pra me fingir ser algo muito diferente do que eu sou de verdade. O diretor do Itaú não deve estar nada afim de olhar as minhas tatuagens. Porque vocês escolheram justamente eu pra cobrir as férias da “braço-direito” dele? Isso não tem nada o meu perfil.
Já não bastava aquele babaca me azucrinando o dia inteiro e tentando tirar o pouco da paciência que existia dentro de mim. Eu resisti bravamente até o ultimo segundo do jogo. Ser tirada de campo foi um alívio. Deus do céu, como eu queria isso!
Vocês falaram muito e aconselharam tanto, me colocaram tanto medo. Que isso me deixou tão perturbada e tão frustrada que me Fez abandonar o barco muito mais cedo. Por mais que eu tivesse medo do mar e não fizesse idéia de quantos tubarões eu ia ter que enfrentar dali pra frente, com certeza nadar em algo tão assustador me faria muito mais feliz que as “seguranças” dos seus navios. Não era isso que eu queria pra mim.
Com 6 anos de idade eu lembro bem do meu avô sentado lendo umas revistas enquanto eu abria aqueles sacos de batata frita que sempre vem com algum brinde dentro. Era uma tatuagem.
- Vô, eu bem quero fazer uma tatuagem quando eu crescer, sabia?
- Oh, minha filhinha. Tatuagem é feita com agulha e dói.
- É?!
É. É feita com agulha e dói. 16 anos depois eu é que estava “fazendo as pessoas doerem”.
- Fábio, eu quero fazer o seu curso de Body Piecer.
- Porra, nem da grana, Aline. Se você tiver afim de aprender a tatuar cola aí. Mas Body Piecer não sustenta ninguém.
- Eu tenho muita vontade de tatuar, demais. Mas não da. Eu já pensei muito nisso, mas eu nem sei desenhar.
- E daí? Eu também não sabia.
- E como é que você aprendeu?
- Na marra. Eu tava passando fome e precisava aprender alguma coisa.
Enquanto ele fazia a minha pintinha e perguntava o que mais eu queria, eu respondi:
- Virar tatuadora.
- Seu desejo é uma ordem então.
Me deu vontade de chorar. Eu sabia que eu tava onde eu deveria estar e aquilo me deu medo. Ninguém me incentivaria. Você acha mesmo que eu ia contar pra alguém, alem da Fernanda, sobre esse curso? Jamais. Eu já me sentia suficientemente insegura. Não precisava de mais ninguém pra me por medo e talvez me fazer desistir. Cagasso mesmo! Eu me borrava toda quando pensava nisso.
Mas e se não me sustentar? E se eu passar fome? Porra, amiga... eu não quero ser pobre, cara. O que é que eu faço? Sigo o meu coração ou faço alguma coisa que me de dinheiro?
A Elisangela sempre dizia que os prazeres vinham depois. Que até pra fazer o que se gosta, você precisa de dinheiro. Eu concordo, em partes. Mas isso tem muito mais a ver com que tipo de vida você quer.
Pra quem torrava o salário inteiro em um monte de merdas que me cansavam em menos de três meses, quem diria que agora eu to ralando sozinha pra comprar tudo o que eu preciso, hein? Nada de roupas novas e da um tempo nas baladas, mocinha. Você sobrevive sem isso.
É, as máquinas são caras. Me deixaram sem dinheiro algum. Eu tive que trocar de material um monte de vezes, porque a falta de fiscalização e a falta de ter um tatuador amigo do teu lado pra te dizer onde comprar cada coisa, faz muita falta. Uma falta que custa muito caro. É tinta batizada, agulha mal soldada, biqueira errada e nego que usa má fé pra enganar quem não entende nada. Máquina de péssima qualidade que só vai fazer você ter ainda mais dificuldades em algo que no início já parece impossível. Ou você acha que é muito fácil fazer um traço limpo numa “caneta” que treme o tempo inteiro? É uma marca pra vida inteira, sente o peso.
As tintas aquarela pra desenhistas fazerem séries são absurdamente caras. Com uns 300paus você compra as cores básicas. Os papéis? Pior ainda! 80 reais numa única folhinha de boa qualidade, e você desperdiça um monte delas aprendendo a pintar. Se fosse naquela época que eu gastava aos montes dava pra comprar tudo de uma vez só, rindo. Agora eu penso mil vezes quantas pessoas eu preciso tatuar pra cada lance que eu tenho que comprar. E vender aquelas bolsas, sapatos e bugingangas que só servem pra ocupar espaço.
É assim que a gente cresce, basicamente sem a ajuda de ninguém. Não fui eu que gritei e me estressei, não fui eu que falei que não queria mais ninguém falando um “ai” das minhas escolhas. Eu falei pro prédio inteiro ouvir que eu ia ser tatuadora e coitado de quem se metesse. Eu já sabia que a partir daquele momento eu estava dando adeus as companhias que eu tinha pra caminhar sozinha.
É justamente o que me faz ser tão orgulhosa de ser o que sou e ver a pessoa que eu me tornei. Eu senti muito medo da estrada, vocês não fazem idéia. Me perdi um milhão de vezes, quase fui estuprada. Me assaltaram, parei pra pedir ajuda. Teve gente que me mandou voltar lá pro começo e ir por outro caminho. Pra minha sorte eu fui fazendo uns amigos nas andanças. Muita gente ficou com pena do meu desespero e resolveu me ajudar. Muita gente já se perdeu aqui um dia e sentiu medo desse escuro, das caras feias. Que tatuador nunca chorou e pensou: vou desistir dessa merda? Até hoje, nenhum que eu conheça.
Eu ainda não peguei a manha dessa tinta não, ta? Ainda descubro como fazer degrade. As minhas linhas também não estão tão perfeitas. Mas pela primeira vez na vida eu me sinto perto de mim mesma. Sabe aquele “sal” que aquela pessoa bonita, divertida e simpática não tinha? Então, esse cara meio esquisito, de cabelo bagunçado e idéias malucas tem, tem demais. E eu to completamente apaixonada por ele. Eu acho até que encontrei a minha alma gêmea.

Além da Fernanda tinha eu pra vc contar :p
ResponderExcluirSaiba que tenho orgulho de te conhcer, você é uma grande amiga, minha pirâmide :)
Cade tu ?
ResponderExcluirCaraca, li tudo!
ResponderExcluirE vc sabe q eu me vi aí, me vi em seus medos e em seus desejos, mas eu não estou na grande e deseja SP. Um dia quem sabe moro aí no teu ladinho e sobrevivo.
Porém agora no final da minha faculdade, passei nas matérias e vou direto pra formatura período que vem. Descobri o que gosto de fazer: Publicidade e Propaganda.
Gosto disso, é a vida!
CADE TU? [2]
beijos