domingo, 28 de junho de 2009


Hoje a minha mãe chegou de viagem. Nós não moramos juntas. Há dois anos. Ela e meus irmãos continuam no Rio. Eu sempre fui Paulista por opção. E cariocas que me perdoem, mas eu amo muito mais São Paulo. Não to querendo dizer que necessariamente um lugar é mais bonito que o outro ou coisas do gênero não. É uma questão de gosto mesmo, total pessoal. Afinidades.

Com 9 anos de idade eu já sabia que essa ia ser a terra pra construir a minha vida. E o engraçado é que a sensação que eu tenho, é justamente de que eu nunca construi uma vida no Rio de janeiro. Nada grande, nada adulto, nada que me parecesse mesmo real. Eu acho às vezes que a gente meio que tem uma missão, sabe? Em alguma coisa, com alguém ou algum lugar. Eu só parti na minha hora. Levou um tempo pra descobrir o que eu queria pra mim, mas eu me achei.

Há exato um ano atrás eu estava extremamente mau humorada, chorona e vazia. Eu nunca vou esquecer do dia que voltei do trabalho chorando e soluçando enquanto a minha tia dirigia com uma mão e com a outra segurava a minha.

- Você é muito nova pra realmente saber o que significa estar vazia.

Eu realmente me sentia vazia. Demais.
Maeu salário inteiro era investido em roupas, baladas, um pouco de maquiagem. Dívidas no cartão de crédito. Um monte de sapatos que eu mal usei, tendo sorte dos que eu usei realmente. Era a minha forma de me preencher, de alegrar um pouco uma vidinha agitada, mas muito sem graça que eu levava.

- Aline você tem tudo! É jovem, bonita, tem uma amiga que ta sempre do seu lado. Mora num bairro bom, tem uma boa condição de vida. Emprego, estudo. Você não é vazia. Você não tem motivos pra se sentir infeliz. Entende, meu amor?

Não, eu não entendia. Eu compreendia muito bem o que ela falava. Mas não era suficiente. Eu não queria aquele emprego, eu queria algo muito maior que só eu podia me dar, e aquela ainda não era a hora. Eu precisava de mim mesma. Precisava me encontrar.
Pular de curso em curso na faculdade, prestar vestibular sei lá quantas vezes. Gostar de alguma coisa e ainda sim não sentir que aquilo tem tudo ou o suficiente pra te preencher não era nada fácil pra mim. Se é pra fazer algo, que seja bem feito. E pra isso é preciso bater forte aqui dentro e me fazer vibrar.

Eu gostava de muita coisa diferente e isso me embaralhava demais. Eu gostava de várias porque nenhuma delas era suficiente pra me prender. Nenhuma tinha exatamente o que eu buscava. Sempre faltava algo. Sabe quando você encontra alguém muito legal e essa pessoa é divertida, bonita, engraçada, te da valor... mas não faz o seu coração bater bem forte e você não fica tão ansioso na hora do encontro? Sabe quando falta alguma coisa, aquele sal? Era tipo isso...

Aquela mulher me pressionando todos os dias também não ajudava nada. Eu me sentia uma bonequinha na mão das pessoas. Por favor, alguém aí perguntou se eu estou satisfeita?
Desculpe, mas... alguém me perguntou se eu estou feliz, se é isso que eu quero pra mim?
Eu não vou começar. Eu juro que eu não vou começar enquanto eu não tiver certeza! Por que eu não acho um curso do meu gosto? A Elisangela vai ficar falando, Deca. Ela sempre pergunta da minha faculdade. Eu só tenho mais uma semana pra descobrir o que eu quero fazer a vida inteira. E ainda não tem nada que realmente me empolgue.

Me matava aquela expectativa enorme em cima de mim.
- Você tem um excelente emprego. Não seja burra, tenta crescer La dentro.

“Olha essas tatuagens! Que cor é essa de cabelo? Aline, você usa muita maquiagem. Já foi ver sua faculdade? Você sabe que nada vai te segurar aqui sem um curso, mocinha. E essas pulseiras, não são muito grandes e brilhantes? Os esmaltes que você usa não passam seriedade. Eu te acho muito criativa e muito inteligente, por isso eu quero que você suba de cargo. Mas antes você precisa ser outra pessoa, ok?! Claro que ta ok, Aline. Quem decide aqui sou eu ;) ou senão você vai ficar pobre.”

Eu tinha muito medo de ficar pobre. Elas adoravam me deixar muito mais insegura. Quem se sente inseguro não arrisca, vai pelas idéias dos outros. Uma menina tão bonita e tão inteligente não poderia desperdiçar tantas chances, não é verdade?

“Faça tudo o que eu mandar e você vai ser feliz pro resto da sua vida”

Pronto, explodiu! Eu não agüento mais, cansei. Cansei de muita conversa, cansei de muito conselho que eu sequer pedi. Vem Ca, me lembrem por gentileza a hora que eu pedi a opinião de vocês ou que alguém me aceitasse, porque eu mesma não estou lembrando.

Eu nunca disse que esse era o emprego dos meus sonhos. Que eu queria morar em Moema a vida inteira. Eu também nunca achei que RH tivesse alguma coisinha a ver comigo. Eu odeio todas essas formalidades, essas bostas de roupas que só servem pra me fingir ser algo muito diferente do que eu sou de verdade. O diretor do Itaú não deve estar nada afim de olhar as minhas tatuagens. Porque vocês escolheram justamente eu pra cobrir as férias da “braço-direito” dele? Isso não tem nada o meu perfil.

Já não bastava aquele babaca me azucrinando o dia inteiro e tentando tirar o pouco da paciência que existia dentro de mim. Eu resisti bravamente até o ultimo segundo do jogo. Ser tirada de campo foi um alívio. Deus do céu, como eu queria isso!
Vocês falaram muito e aconselharam tanto, me colocaram tanto medo. Que isso me deixou tão perturbada e tão frustrada que me Fez abandonar o barco muito mais cedo. Por mais que eu tivesse medo do mar e não fizesse idéia de quantos tubarões eu ia ter que enfrentar dali pra frente, com certeza nadar em algo tão assustador me faria muito mais feliz que as “seguranças” dos seus navios. Não era isso que eu queria pra mim.

Com 6 anos de idade eu lembro bem do meu avô sentado lendo umas revistas enquanto eu abria aqueles sacos de batata frita que sempre vem com algum brinde dentro. Era uma tatuagem.

- Vô, eu bem quero fazer uma tatuagem quando eu crescer, sabia?
- Oh, minha filhinha. Tatuagem é feita com agulha e dói.
- É?!
É. É feita com agulha e dói. 16 anos depois eu é que estava “fazendo as pessoas doerem”.

- Fábio, eu quero fazer o seu curso de Body Piecer.
- Porra, nem da grana, Aline. Se você tiver afim de aprender a tatuar cola aí. Mas Body Piecer não sustenta ninguém.
- Eu tenho muita vontade de tatuar, demais. Mas não da. Eu já pensei muito nisso, mas eu nem sei desenhar.
- E daí? Eu também não sabia.
- E como é que você aprendeu?
- Na marra. Eu tava passando fome e precisava aprender alguma coisa.

Enquanto ele fazia a minha pintinha e perguntava o que mais eu queria, eu respondi:
- Virar tatuadora.
- Seu desejo é uma ordem então.

Me deu vontade de chorar. Eu sabia que eu tava onde eu deveria estar e aquilo me deu medo. Ninguém me incentivaria. Você acha mesmo que eu ia contar pra alguém, alem da Fernanda, sobre esse curso? Jamais. Eu já me sentia suficientemente insegura. Não precisava de mais ninguém pra me por medo e talvez me fazer desistir. Cagasso mesmo! Eu me borrava toda quando pensava nisso.

Mas e se não me sustentar? E se eu passar fome? Porra, amiga... eu não quero ser pobre, cara. O que é que eu faço? Sigo o meu coração ou faço alguma coisa que me de dinheiro?

A Elisangela sempre dizia que os prazeres vinham depois. Que até pra fazer o que se gosta, você precisa de dinheiro. Eu concordo, em partes. Mas isso tem muito mais a ver com que tipo de vida você quer.

Pra quem torrava o salário inteiro em um monte de merdas que me cansavam em menos de três meses, quem diria que agora eu to ralando sozinha pra comprar tudo o que eu preciso, hein? Nada de roupas novas e da um tempo nas baladas, mocinha. Você sobrevive sem isso.

É, as máquinas são caras. Me deixaram sem dinheiro algum. Eu tive que trocar de material um monte de vezes, porque a falta de fiscalização e a falta de ter um tatuador amigo do teu lado pra te dizer onde comprar cada coisa, faz muita falta. Uma falta que custa muito caro. É tinta batizada, agulha mal soldada, biqueira errada e nego que usa má fé pra enganar quem não entende nada. Máquina de péssima qualidade que só vai fazer você ter ainda mais dificuldades em algo que no início já parece impossível. Ou você acha que é muito fácil fazer um traço limpo numa “caneta” que treme o tempo inteiro? É uma marca pra vida inteira, sente o peso.

As tintas aquarela pra desenhistas fazerem séries são absurdamente caras. Com uns 300paus você compra as cores básicas. Os papéis? Pior ainda! 80 reais numa única folhinha de boa qualidade, e você desperdiça um monte delas aprendendo a pintar. Se fosse naquela época que eu gastava aos montes dava pra comprar tudo de uma vez só, rindo. Agora eu penso mil vezes quantas pessoas eu preciso tatuar pra cada lance que eu tenho que comprar. E vender aquelas bolsas, sapatos e bugingangas que só servem pra ocupar espaço.

É assim que a gente cresce, basicamente sem a ajuda de ninguém. Não fui eu que gritei e me estressei, não fui eu que falei que não queria mais ninguém falando um “ai” das minhas escolhas. Eu falei pro prédio inteiro ouvir que eu ia ser tatuadora e coitado de quem se metesse. Eu já sabia que a partir daquele momento eu estava dando adeus as companhias que eu tinha pra caminhar sozinha.

É justamente o que me faz ser tão orgulhosa de ser o que sou e ver a pessoa que eu me tornei. Eu senti muito medo da estrada, vocês não fazem idéia. Me perdi um milhão de vezes, quase fui estuprada. Me assaltaram, parei pra pedir ajuda. Teve gente que me mandou voltar lá pro começo e ir por outro caminho. Pra minha sorte eu fui fazendo uns amigos nas andanças. Muita gente ficou com pena do meu desespero e resolveu me ajudar. Muita gente já se perdeu aqui um dia e sentiu medo desse escuro, das caras feias. Que tatuador nunca chorou e pensou: vou desistir dessa merda? Até hoje, nenhum que eu conheça.

Eu ainda não peguei a manha dessa tinta não, ta? Ainda descubro como fazer degrade. As minhas linhas também não estão tão perfeitas. Mas pela primeira vez na vida eu me sinto perto de mim mesma. Sabe aquele “sal” que aquela pessoa bonita, divertida e simpática não tinha? Então, esse cara meio esquisito, de cabelo bagunçado e idéias malucas tem, tem demais. E eu to completamente apaixonada por ele. Eu acho até que encontrei a minha alma gêmea.

O brilho da lareira já quase apagava e eu ainda sentia o cheiro doce de cravo misturado com milho. Resgatei uma antiga poesia que eu costumava queimar nas noites de Imbolc.

Desde que tive depressão, há quatro anos, essa foi a primeira vez que consegui resgatar verdadeiramente o que nunca morreu dentro de mim de verdade. Eu não me senti morta por todos esses anos. Mas muitas coisas gritavam ao meu redor e além de bom senso, o meu eu soube esperar o momento certo, atrás da fila, depois de tantas gritarias e empurrões pra falar calmamente comigo.

A forma que eu encontrei a vida inteira pra matar saudade de alguém ou me sentir em companhia, sendo ouvida, é através do céu.
Todas as férias eu viajava e sentia muita falta da minha mãe. O que me deixava menos triste e me aproximava um pouco dela era o céu, e a lua. Essa era a única coisa em comum ao nosso olhar, a única coisa que a distância não poderia separar da gente. E dessa forma eu me sentia conectada a qualquer pessoa.

Era janeiro, fazia muito calor e ao mesmo tempo muito frio, dentro de mim. O meu estômago gelava, e era madrugada. Eu sentia medo, muito medo de não dar certo, porque eu queria demais. Sem conseguir dormir eu precisava me acalmar. Conversar com as pessoas quase nunca me aliviou. Eu precisava conversar com alguém em silêncio. Alguém que realmente sentisse o que se passava aqui dentro.
Além do céu, eu sempre gostei muito de altura também. Sentar na janela e observar os sinais “vermelho, amarelo, verde”, os carros passando, o silêncio e as poucas luzes que ainda viviam na madrugada sempre me acalmou demais. Eu nunca me senti em maior companhia, porque principalmente no silêncio eu me visitava.

O horizonte sempre me fez pensar no quanto qualquer coisa pode ser insignificante. O meu “consolo” sempre foi olhar pro fundo, o máximo que eu podia. Além do que eu via existiam muitas coisas, muito mais pessoas e milhares de luzes piscando em combinações que eu nem fazia idéia. Quando eu voltava o filme e pensava na janela, no choro e o problema, tudo isso acabava virando um grão de areia. Ou quase isso. Porque o mundo não parava. A roda ainda ia girar.

De dia, a noite, no mato ou no meu quarto. Sentada na janela de madrugada ou na grama ainda meio molhada do sereno da noite anterior, enquanto o sol florescia mais ainda o vermelho do meu cabelo. Não importava se eu estava de saia ou enrolada no cobertor. Era sempre o horizonte que eu procurava. Eu tentava sempre ver além, encontrar paz. Ali eu sempre conseguia me conectar comigo mesma.

Cada um encontra sua forma de se conectar com o todo.

quinta-feira, 25 de junho de 2009


Milhões de bitucas de cigarro espalhadas pelo quarto, latinha vazia de cerveja, garrafa de vodka pela metade, jurupinga em extinção. Ah, sem contar na tequila que eu deixei cair no chão da sala final da noite, ou melhor, início do dia, quando tentei levantar pra vir “dormir”.

Tem que ta muuuuuito bêbado mesmo pra conseguir dormir aqui dentro. O quarto fede a álcool. Fede muito a álcool, cara. Você ainda tem que dividir os espaços que sobram com um monte de bêbados espalhados pela cama, chão e etc. E quase sempre algum deles agarrado no meu toba. Grande toba! Branquinho, fofíssimo e fiel companheiro de noites tristes e solitárias. Ele sempre me consola.

É tudo uma grande zona. Podreira total. Se eu contasse pra quem não me conhece que essa é uma rotina religiosa dos meus finais de semana. Que os meus domingos são dedicados a tentar recuperar a minha alma e moral e ao “bem estar da casa”, arrumando a zona e colocando tudo em ordem, ninguém acreditaria que eu perdi a virgindade com 21 anos de idade na cara. Pois é. Muito menos o meu porteiro acreditaria.
Ele sempre me vê voltando de braço dado com alguém. É um “ir e vir” de macho aqui dentro, e ele com certeza não deve achar que são só meus amigos. Que garota bonita, baladeira e jovem de Moema faz isso, além das primas? Quase sempre eu to com o sapato na mão, rindo muito alto, falando merda ou tentando falar e a saia quase virando cinto. Que cinto lindo! Me avise sempre que ela subir, Fernanda.

Colocaram corrimão lá na entrada do prédio. Eu ainda to na dúvida se é pra crianças e idosos ou se foi um gentil presente pra minha pessoa. Quando eu desço pra academia o espírito cara de pau me possui. Cumprimento todos com um enorme sorriso no rosto e uma simpatia única de “boa moça”, as bochechas ficam até douradinhas, tem que ver. Mas eu sei que eles sabem hahaha porra, se sabem! De todos os palavrões e festinhas que rolam aqui dentro. Ainda sim eu tento disfarçar.

A minha tia sabe, os vizinhos ouvem, os porteiros riem, a minha mãe desconfia. Minha Irmã ta careca de saber. Mas eles todos fingem que eu não sou nada marginal.

“Eu quero ver todo mundo trepando mermo”

Hoje me falaram que eu estava precisando de sexo, e pô, eu nem tava de mau humor, cara. Eu seria a pessoa incrivelmente mais feliz do mundo se os meus problemas se resumissem nessa falta.

Isso me fez lembrar das vezes em que eu quase morri, perdi o ar, fiquei vesga e subi pelas paredes nas mãos de alguém, louca pra dar e “não podia”. Não podia?! Não podia é o cacete! Mas eu era muito babaca. Fazer “miserinha” nunca fez ninguém respeitar ninguém. Tudo hipocrisia. Quanto mais eu tentava achar alguém que me respeitasse, mais eu caia em relacionamentos de babacas. Hoje em dia eu quero mais é que se fodam. Se eu tiver com vontade de dar eu dou, porque eu dou o que é meu e ponto. Do contrário também vale. Eu acho uma das maiores traições que uma mulher pode fazer com ela mesma. Transar, sem vontade de transar. Independente do motivo, eu não me violo a esse ponto.

Eu me lembro de muitas vezes já ter sido tratada como uma “putinha” como essas aí que tem aos montes na vida, e isso fazia eu me sentir um lixo. E olha que eu sempre me dei ao respeito. Eu também já ouvi asneiras do tipo: você fala muito palavrão, tem muito amigo homem e vive dando festa. Para de beber um pouco pra algum homem te levar a sério.

Ta, aí eu paro de beber um pouco até um homem me levar a sério, e depois que ele levar, o que eu faço? Volto a minha vida? Viro uma pessoa que ele não conhece? Pra que? Aliás, pra quem? Quem foi que disse que eu quero um cara que não sabe respeitar o meu jeito e que não curta isso? Eu sou isso aí mesmo, cara. Eu fala palavrão, sou viciada em balada, prefiro amizade dos homens e eu quero alguém que me acompanhe nisso tudo. Já tentei ser “uma pessoa melhor” e mais quieta. Mas essa sou eu, e quem quiser ficar do meu lado, tem que gostar de mim assim. Eu também sou cheia de um monte de defeitos que me envergonham e às vezes até me entristecem. Mas o ponto positivo é que além de sempre tentar ser melhor e não estagnar, eu acho que as minhas qualidades são raras de se achar em alguém hoje em dia. Por isso eu me dou ao luxo de escolher quem eu quero comigo e nao aceitar qualquer merda e manter os meus “vícios” de “vida louca, vida-a-a” e deixar que o mundo inteiro acorde enquanto eu for dormir.

Ta aí, essa Aline que não é pra qualquer um, mesmo. Eu sei que mulheres de personalidade forte e principalmente, que sabem viver e tem muitos amigos, acabam passando uma certa “insegurança” aos queridos super-machos. Mas eu não quero mesmo macho frouxo. Eu quero um homem que seja macho o suficiente pra se sentir inseguro comigo e mesmo assim ter vontade de me conquistar, medo de me perder todos os dias e ainda ache que vale a pena. E eu não tenho pressa.

quarta-feira, 24 de junho de 2009


“Boa noite, senhorita incógnita. Durma bem”

Aquilo soou como música aos meus ouvidos. Não que eu ache engraçadinho fazer pose de misteriosa, muito pelo contrário. Eu nunca tive essa fama, muito menos forcei a barra. Por mais que eu me expressasse bem em certos momentos ou gostasse de mostrar, eu sempre tive uma certa dificuldade em me fazer entender. O que se passa dentro da minha cabeça é completamente pessoal, e a forma que eu sempre encontrei de por pra fora, também sempre foi embaralhada. E ao mesmo tempo parecendo tão óbvia. O que de óbvio não tinha nada.

Ta certo que na convivência, sacar as minhas manias e respeitar as minhas “flutuações de humor” sempre foi “fácil”. Não no sentido de ter saco, não é disso que eu to falando. E sim no sentido de “sacar meu jeito”.

A “senhorita contradição, quase perfeita” ou “pirâmide cheia de labirintos”. É... eu sempre fui paradoxal. Sempre dividida entre o preto e o rosa, o amor e o ódio, a alegria e a tristeza. “Pensamentos levianos, outros nem tanto. Metade pureza, metade lascívia. Agridoce, podendo ser igualmente amarga para lábios desavisados. Embaralha-se em mil humores, tão inconstantes quanto a própria vida. Ela é a criança saltitante mas também o suicida em seu desvario."

Por incrível que pareça quase sempre os homens me sacaram mais, apesar de quase nunca entenderem bem o que se passava dentro da minha cabeça. Talvez por isso eu sempre tenha preferido amizades masculinas. Além de serem muito mais de farra, bebidas, piadinhas babacas e festas. Os homens são muito mais “da zona”, no sentido bom da palavra. Eu admiro a forma como eles aproveitam a vida, exceto as vezes que machucam as pessoas desnecessariamente ou não sabem a hora de parar uma brincadeira. Isso sempre fodeu ainda mais a minha TPM.

No meu último trabalho eu caí no meio de três homens. Eu era a única mulher do setor. Era um inferno, mas eu gostava. E eu sabia que seria um inferno muito maior se eu tivesse que dividir aquele espaço com mais três mulheres. Provavelmente tudo seria muito sério o tempo todo. Se eu já não agüento a minha TPM, quem dirá pro mês inteiro, uma semana pra cada. Deus me livre! Fora que mulheres são ótimas apreciadoras de besteiras e guloseimas a tarde, e eu me afasto ao máximo de pessoas que desequilibram a minha dieta.
Ah, sem contar o “melo-drama”. Mulheres são muito mais dramáticas. Eu prefiro ser direta. Não gostou, manda logo tomar no cu, porra! E até nesse ponto os homens me entendem melhor.

Se eu fosse lésbica, provavelmente eu faria o estilo “Joãozinho”e se eu fosse homem, capaz que meio mundo tivesse atrás de mim pra me encher de porrada. Acho que até hoje a minha tia se pergunta como Deus conseguiu fazer uma criatura tão feminina e tão perua, e ao mesmo tempo tão desbocada.

Sempre foi assim. Não tem mais jeito. Desde pequena eu falava palavrão pra caralho. Ouvia dos meus irmãos, dos amigos dos meus irmãos, de todos os moleques da rua. E eu vivia na rua. Mas eles eram homens, e eram mais velhos. A minha mãe cansava de me bater e me colocava sentada de frente pra parede. Aí sim eu começava a chorar. Eu odiava castigo, muito mais do que porrada. Porrada não me fazia chorar, me privar sim. Me proibir sempre me sufocou.
Ela também não pode falar muito, adora um palavrão. Se bem que pensando, eu acho que mais da metade ela aprendeu comigo.

E bom, eu só não me irrito muito pela ponta dos seus pincéis estarem sempre sujos de tinta, por você nunca saber onde as suas coisas estão e quase sempre levar séculos pra responder os meus e-mails, porque eu entendo muito bem, eu sei como é que é.

Já me disseram que era mal de tatuador, sabia? Cada dia que passa eu tenho mais certeza de estar na profissão certa.

terça-feira, 23 de junho de 2009


Eu adorava o barulho dos sinos de madrugada, sempre acompanhados de um cheiro doce que subia pela varanda enquanto eu observava as ruas. Mas as ruas nao me passavam nada alem de paz, eu nao tinha a menor lembrança... Era como um sonho tranquilo de esperança que virou real.

Depois de anos eu mal noto o som dos sinos, nao sinto quase o cheiro doce e as ruas se tornaram muito barulhentas e me trazem algumas lembranças que nao gosto.

Algumas vezes o meu único porto seguro também desmorona e eu me sinto sem teto, sem chao, sem equilibrio. E pior do que tristeza é agonia de ter dentro de si uma bomba que explodiu e nao saber o que fazer ou pra onde correr. Pq meu unico ponto de paz, já virou turbilhao.

Minha única vontade é correr, correr, correr... e infelizmente perceber que assim nao se chega a lugar algum.

terça-feira, 16 de junho de 2009


Manda um beijinho pros seus neurônios, eles ainda tentam ser os meus preferidos. A sua sinceridade, peça desculpas... mas eu não acredito muito nela. Ah, seu rostinho, bem... ele realmente é bonitinho mas não tem me servido tanto. Eu saí te devendo algumas coisas, mas do fundo do meu coraçãozinho rosa, muito obrigada, mesmo!

Eu to me refazendo. Os caminhos continuam abertos, as pessoas ainda podem entrar, mas os buracos estão tapados.

Eu gosto do meu cabelo assim vermelho, dessa personalidade extremamente forte, olhos grandes e até mesmo dessa mania irritante de me irritar, cansar e largar as pessoas. Talvez me falte mesmo paciência, disciplina, peitos, toleranci... ah, vocês já sabem.

To vendendo aquele bando de sapatos maravilhosos semi-usados que sempre machucavam muito o meu pé. A arte nunca esteve tão presente e preencheu tanto a minha vida. Consegui finalmente ser tocada por coisas simples e me satisfazer com elas.

Eu to mais centrada, madura, e responsável. Mas ainda sobra muito tempo e disposição pras minhas manhas e vaidades. Os meus lápis ultra coloridos, mil maquiagens, as tatuagens grandes e agressivas demais, alargadores nas orelhas. É “muita informação”, e cada vez eu to “mais suja”, mas por incrível que pareça você ta aprendendo a me respeitar mais assim.

Me tornei debochada, irônica e cínica com algumas pessoas. Vocês foram uma ótima escola, sabia? ;) Foi o máximo que certas pessoas conseguiram me dar.

Eu perdi muita gente e ganhei tantas coisas. Continuo teimosa e briguenta, ainda xingo palavrão alto pela casa. Alias, eu continuo falando palavrão pra caralho. Me desfaço rápido de tudo e todos que perturbam a minha paz. Eu descobri que essa sou eu, e essa é a minha vida. E eu não quero mudar por nada e nem ninguém.


I'm not your flower.
I’m not your scarlet rose.
And you’re not by my side.


Lálalá laralá...

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Buongiorno, principessa


Foi a melhor coisa que eu pude ouvir ao acordar. Parecia que o dia me mandava ser feliz.
Eu não sorria porque eu estava bem, eu nunca estava realmente bem. Eu sorria porque precisava chegar o mais próximo disso, e conseguia. Foi essa minha forma de me elevar e “me ninar” que me salvou. Enquanto o resto do mundo invejava a minha “incrível vida fácil e feliz” da garota do rostinho lindo e sorriso brilhante. Que de feliz não tinha nada, de fácil muito menos. Mas que eu continuava sorrindo e irradiando, continuava. E era isso que matava muita gente.

Mas agora invejem, podem invejar de verdade. E invejem principalmente a minha força. Porque se eu tenho a vida que tenho, quem eu tenho e estou onde estou, foi graças a mim mesma. E agora eu to gostando e aprendendo a jogar o jogo. Sempre me convidaram e eu sempre recusei. Sempre preferi escolher o meu ritmo de música. Mas eu comecei a perceber que dançar o ritmo da música alheia ouvindo o seu próprio som na mente, é mais rápido.

Eu até tive motivos pra chorar, e sinceramente? Perdeu a graça. É, perdeu a graça. Virou pequeno, banal e comum. Diante de tantos fatos e diante de mim mesma, a única coisa que eu penso é o seguinte: Ahan, grandes merda.

Que de grande não tem nada, vamos confessar. Isso não é mais motivo pra me fazer chorar de tão banalizado que ficou. Muito menos poder pra estragar o meu dia. Aliás, pouquíssimas coisas tem realmente estragado meu dia. Há um certo tempo eu to pagando pra ver o que ou quem vai conseguir isso.


Tudo se tornou incrivelmente leve.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Being so close to myself is how close our eyes and enter into communion with God.


Tudo o que precisei fazer foi me afastar de toda essa confusão e me encontrar. Eu precisava resgatar o meu equilíbrio... e os dias ficariam mais calmos.

Deus, diante de toda essa solidão conversa comigo e me serve de única companhia. Somos só nós dois, somente eu mesma. E quando me sento na grama ainda meio molhada do sereno da noite anterior, toda manha… fecho os olhos e deixo que o sol toque meu rosto. Por alguns instantes o vento balança meus cabelos e o mundo ao redor deixa de existir. Eu ouço apenas o que existe dentro de mim, e nesse momento comungo com Deus.

Eu sei que pode parecer solitário e tão triste... sozinha, sentada na grama ainda molhada do sereno da noite anterior, deixo que o sol bate no meu rosto e que o vente balance meus cabelos. A única voz que ouço, dentro de mim… me permite comungar com Deus. Somos só eu e ele aqui, apenas eu.

segunda-feira, 8 de junho de 2009


- Me disseram que você me chamou
- Sim, chamei. Mas eu tenho você comigo todas as noites.
- Eu sei, sempre te escuto
- E porque algumas noites eu simplesmente não sinto você comigo? embora eu saiba que está sempre aqui. É porque não te escuto?
- Não. É porque você não se escuta.
- Como assim?
- Pra me ouvir, você precisa primeiro ouvir a si mesma.E ouvir a si mesma não é dar ouvidos a qualquer pensamento ou ideia que vier a sua cabeça.
- E como eu vou saber diferenciar? as duas formas tem a mesma voz.
- Porque qualquer uma delas é você. Mas só uma é realmente o seu espírito.
- Como assim? Eu não sou completa pelo meu espírito?
- Sim... e não. Uma parte é tudo que você já viveu. E isso engloba seus medos, desejos, fantasias... a outra parte é pura, é o mais profundo do seu EU. É aquilo que você é verdadeiramente.. é a sua essência, seu self. Independente da Aline.
- Mas a Aline não é esse espírito?
- A Aline é o que você faz da vida, o lugar que você escolheu pra morar, é a sua profissão, seus amigos, sua família, sua personalidade, sua cor de cabelo, suas lembranças, músicas preferidas. O seu self é tudo o que você já foi, purificado. É o que a sua alma é, independente de que vida você viva ou que nome receba. A sua alma não tem família, gostos e preferências, porque ela é uma essência.
- E como eu posso fazer para ouvi-la, e não "me ouvir"?
- É a parte mais simples e também a mais complicada. Estando em paz consigo mesma. Você lembra dos dias em que se sentava perto da janela, às vezes sem pensar em nada e me ouvia?
- Sim, me lembro.
- Nesses dias você pode ouvir porque conseguiu "se livrar" de si mesma e se conectar com a sua alma.
- E como eu sei se realmente estaria falando com ela ou "comigo mesma", em forma de Aline?
- Quando você estiver calma, e o seu coração controlar as suas emoções, ou até quando você mais precisar dela. Quando o resto do mundo sumir, qualquer ruído, por menor que seja... qualquer voz, calor ou frio. Você vai esquecer de tudo e assumir a sua própria forma, e então vai estar dentro de si mesma...
-Aline? Aline?! no que você estava pensando? Eu tô há meia hora te chamando e você não me atende. Vamos, já está na hora de ir embora.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Tic-tac...


O tic-tac nem faz mais barulho. As horas passam cada vez mais rápido, as minhas tarefas aumentam e pra completar, eu voltei a não ouvir mais o barulho do despertador. A única coisa que mantem a incrível capacidade de me acordar são os meus pesadelos pela “madrugada”.

Eu devia organizar melhor os meus horários e colocar os pingos nos “i’s”. São um milhão de pessoas falando ao mesmo tempo na minha cabeça e um milhão de coisas pra fazer. “Corre atrás, pergunta ao Ricardo, aprende, compra, pergunta ao cicrano”. Mas é tanto “cicrano”, compra e corre atrás, que às vezes eu esqueço e me confundo. E esse enjôo que não me larga, logo agora...

Será que toda sexta feira vai ser enfeitada com olheiras, expectativas e correrias? Por um lado eu bem gosto. Cada vez que eu entro dentro daquele estúdio um friozinho toma conta de mim, e o meu estômago fica cheio de borboletas dançando ballet. Não tem mais uma noite de sexta pra sábado que eu consiga dormir antes de amanhecer. A serotonina chama todos os amigos pra dar uma festa aqui dentro e nem pergunta se eu to no clima.

Eu sempre quis chegar até aqui. Quando eu paro pra pensar que os últimos meses e anos têm sido tão perdidos, confusos e conturbados. Sempre tão voltados a primeiro consertar alguma coisa que alguém estragou e depois sim, ir pra frente. É que eu realmente enxergo que nunca pisei nesse degrau. E ele é mais uma vitória.
Algumas lembranças ainda me machucam demais, e parecem querer gritar mais alto cada vez que vou andando. É torturante, eu sei. É horrível ter que lembrar do que a minha consciência nunca esqueceu e talvez nunca esqueça. Mas um dia talvez ela se canse e pare de gritar, porque eu já cansei de dizer que sou mais forte. Acho que às vezes ela duvida disso.

Dessa vez eu não vou deixar que nada me faça descer qualquer escada ou que me prenda nesse degrau por muito tempo, pensando nas coisas que eu tenho que arrumar antes de continuar andando ou que me faça perder tempo colando esparadrapos em feridas. Simplesmente porque agora eu não quero que existam novas feridas, e não vou permitir que elas apareçam. Não tenho tempo pra isso.

E eu não vou continuar ouvindo aquela música, nem dançar no mesmo ritmo. Ainda que isso me inspire.

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O fato de ser um furacão me mata, ao mesmo tempo que me fortalece.