
O brilho da lareira já quase apagava e eu ainda sentia o cheiro doce de cravo misturado com milho. Resgatei uma antiga poesia que eu costumava queimar nas noites de Imbolc.
Desde que tive depressão, há quatro anos, essa foi a primeira vez que consegui resgatar verdadeiramente o que nunca morreu dentro de mim de verdade. Eu não me senti morta por todos esses anos. Mas muitas coisas gritavam ao meu redor e além de bom senso, o meu eu soube esperar o momento certo, atrás da fila, depois de tantas gritarias e empurrões pra falar calmamente comigo.
A forma que eu encontrei a vida inteira pra matar saudade de alguém ou me sentir em companhia, sendo ouvida, é através do céu.
Todas as férias eu viajava e sentia muita falta da minha mãe. O que me deixava menos triste e me aproximava um pouco dela era o céu, e a lua. Essa era a única coisa em comum ao nosso olhar, a única coisa que a distância não poderia separar da gente. E dessa forma eu me sentia conectada a qualquer pessoa.
Era janeiro, fazia muito calor e ao mesmo tempo muito frio, dentro de mim. O meu estômago gelava, e era madrugada. Eu sentia medo, muito medo de não dar certo, porque eu queria demais. Sem conseguir dormir eu precisava me acalmar. Conversar com as pessoas quase nunca me aliviou. Eu precisava conversar com alguém em silêncio. Alguém que realmente sentisse o que se passava aqui dentro.
Além do céu, eu sempre gostei muito de altura também. Sentar na janela e observar os sinais “vermelho, amarelo, verde”, os carros passando, o silêncio e as poucas luzes que ainda viviam na madrugada sempre me acalmou demais. Eu nunca me senti em maior companhia, porque principalmente no silêncio eu me visitava.
O horizonte sempre me fez pensar no quanto qualquer coisa pode ser insignificante. O meu “consolo” sempre foi olhar pro fundo, o máximo que eu podia. Além do que eu via existiam muitas coisas, muito mais pessoas e milhares de luzes piscando em combinações que eu nem fazia idéia. Quando eu voltava o filme e pensava na janela, no choro e o problema, tudo isso acabava virando um grão de areia. Ou quase isso. Porque o mundo não parava. A roda ainda ia girar.
De dia, a noite, no mato ou no meu quarto. Sentada na janela de madrugada ou na grama ainda meio molhada do sereno da noite anterior, enquanto o sol florescia mais ainda o vermelho do meu cabelo. Não importava se eu estava de saia ou enrolada no cobertor. Era sempre o horizonte que eu procurava. Eu tentava sempre ver além, encontrar paz. Ali eu sempre conseguia me conectar comigo mesma.
Cada um encontra sua forma de se conectar com o todo.

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